Aqui perto tinha um homem que morava na calçada e que de vez em quando resolvia gritar na madrugada. Ele ficava na minha rua, num trecho com um longo muro, encostado ao qual ele fez o seu mundinho de latas, papéis e papelões, uns plásticos, merda, mijo e restos de comida (arroz, principalmente). Minha rua tem uma descidona e depois uma subidona (levando em conta a posição do meu prédio), e ele ficava no começo dessa subidona. E de vez em quando ele resolvia gritar no meio da madrugada, sempre aquela retórica de desgraçado: "Seu filho da puta, vai tomar no cu, eu vou isso, eu vou aquilo", e devido aos cerca de 400 metros de distância, e ao vento, e ao atrito do ar (etc. etc.), os gritos chegavam meio apagados, como se o homem urrasse preso na boca de um inferno. Então houve uma noite em que saí de carro pra comprar cigarro ou outra bobagem qualquer, era bem tarde, e estava pegando fogo onde ele ficava. Toda a lixarada dele ardia. Eram chamas altas, seria o caso de ligar pros bombeiros, mas eu não fiz nada (imagino que alguém tenha feito). No dia seguinte estavam lá apenas manchas pretas no muro e umas coisas queimadas, vá saber o quê, tudo quando queima fica igual, latas, papéis e papelões, plásticos, merda, mijo, comida. Mas eu saberia se o homem tivesse queimado junto. Não tinha. E não pensei mais nisso - até que, dois dias atrás, passei na rua de cima e notei um novo monte de dejetos vagamente organizados junto a uma garagem, daquelas que têm portão maciço, de madeira, talvez de uma casa à espera de inquilinos. Passei rápido e não reparei direito, porque há tanta coisa pra fazer, não é mesmo? e é claro que eu não tenho tempo pra observar detalhes da vida alheia, ainda que públicos. Mas não faz nem 15 minutos que eu ouvi as mesmas gentilezas, "Filho da puta, eu vou isso, eu vou aquilo", e era agora como se a voz tivesse deslizado da boca à garganta de um inferno. Pois então continua sendo verdade que tem um homem que mora na calçada e que de vez em quando resolve gritar na madrugada. Ele, como tudo, só ficou um pouquinho mais distante. Mas ainda é dele uma parte das palavras desse mundo.